Também aplicada à indústria do cimento, tecnologia de coprocessamento reintroduz na cadeia produtiva os resíduos de diversas fontes, que antes eram dispostos em aterros

O aumento da geração de resíduos nos últimos 30 anos tem se tornado um dos grandes desafios para a sustentabilidade global. Atualmente, são produzidas 1,4 bilhão de toneladas por ano. Uma alternativa sustentável e adequada para a destinação desses resíduos é o coprocessamento, cuja tecnologia reintegra de forma segura o material descartado ao processo de fabricação do cimento.

O coprocessamento vem sendo aplicado de maneira mais ampla no Brasil desde a década de 90. Dos anos 2000 até o momento, já foram coprocessadas cerca de 13 milhões de toneladas de resíduos, reduzindo o uso de combustíveis fosseis, colaborando ativamente para a redução de passivos ambientais e contribuindo para a preservação de recursos naturais. “Transformar resíduos em recursos é chave para o desenvolvimento do país”, ressalta Daniel Mattos, head do Núcleo de Coprocessamento da ABCP (Associação Brasileira de Cimento Portland). “Inserida na economia circular, a tecnologia de coprocessamento tem a capacidade de reintroduzir na cadeia produtiva os resíduos de diversas fontes, que antes eram dispostos em aterro.”

Essa atividade também contribui para a diminuição da emissão de gases de efeito estufa pela indústria de cimento. Globalmente, o segmento responde por cerca de 7% de todo o CO2 emitido pela atividade humana. No Brasil, acentua Mattos, os esforços promovidos pela indústria há décadas vêm colocando o país em uma posição destacada, com um dos menores níveis mundiais de emissão por tonelada de cimento produzida (2,6%).

EMISSÕES

Mesmo assim, ainda há muito trabalho a ser feito no que se refere à substituição de combustíveis fósseis por opções alternativas. Na Europa, países como Alemanha já utilizam o coprocessamento em substituição aos combustíveis fósseis em níveis de 65%. “O Brasil chega até o momento a 15%, porém com a ambição de atingir 55% de substituição até o ano de 2050”, explica Mattos.

Para isso, a ABCP lançou o ‘Roadmap Tecnológico do Cimento’, um documento que traça as metas e diretrizes da indústria brasileira do cimento para a redução da emissão de  CO2 em dois cenários, sendo um primeiro estágio até 2030 e um segundo, até 2050. “Isso pode resultar em uma redução cumulativa de 55 milhões de toneladas de  CO2, ou cerca de 13% do potencial total”, acrescenta.

Para alcançar esses percentuais, foram adotadas medidas em quatro pilares: adições e substitutos de clínquer – produto intermediário do cimento –, por meio do uso de subprodutos de outras atividades; combustíveis alternativos, com a utilização de biomassas e resíduos com poder energético em substituição a combustíveis fósseis não renováveis; medidas de eficiência energética, mediante investimentos em linhas e equipamentos de menor consumo térmico e/ou elétrico; e tecnologias inovadoras e emergentes, por meio da pesquisa e desenvolvimento em tecnologias disruptivas, como a captura de carbono.

Contudo, o especialista avalia que há outros fatores a serem trabalhados para que o coprocessamento avance ainda mais no país. “São necessárias novas discussões técnicas para manutenção e ampliação desta prática como alternativa de destinação ambientalmente adequada de resíduos sólidos”, reforça Mattos. “Além disso, é preciso contar com políticas públicas que tragam maior segurança jurídica e previsibilidade aos investimentos do setor privado.”

Em termos de legislação, Mattos reconhece os esforços realizados pelas áreas responsáveis. No entanto, ele ressalta a importância de o poder público acompanhar o avanço tecnológico do setor, a fim de manter atualizadas as normas pertinentes e preencher as lacunas criadas pela evolução do coprocessamento. A Resolução Conama nº 264/1999, por exemplo, encontra-se defasada ante ao atual cenário tecnológico do segmento. “A atualização é vital para impulsionar o movimento que encaminha o Brasil em uma rota para o desenvolvimento sustentável, alinhando-se às melhores práticas internacionais”, diz o profissional. “Um bom exemplo são as atuações em países da União Europeia, onde o coprocessamento tem um papel social importante e se caracteriza por ser uma atividade complementar e de auxílio ao desenvolvimento das etapas de reutilização e reciclagem de resíduos, eliminando conflitos com a cadeia de valorização e alinhando-se perfeitamente à hierarquia estabelecida na legislação vigente, pois atua somente na parcela de resíduos que não se habilita a tais objetivos.”

DESTINAÇÃO

No que se refere à fração de tratamento dos resíduos não recicláveis, o coprocessamento também tem demonstrado sua viabilidade técnica, ambiental e econômica. “Trata-se de uma alternativa que beneficia a destinação correta de uma boa parte do lixo urbano em aglomerados populacionais mais próximos às fábricas de cimento”, analisa Mattos. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, cerca de 80 mil toneladas são descartadas de maneira incorreta diariamente no Brasil. “Este é um número que pode e deve ser reduzido com o crescimento da atividade”, complementa.

Além disso, a tecnologia também auxilia na redução de resíduos, por não gerar novos descartes. “Isso significa que sua ampliação contribui diretamente para a erradicação dos lixos nas cidades e a ampliação da vida útil de aterros sanitários, tendo benefícios diretos com ganhos sociais, econômicos e ambientais”, conclui Mattos.

Foto: Revalore