Essa pandemia deve trazer uma série de mudanças na sociedade. Contudo, quais são os ensinamentos do novo coronavírus para o setor de reciclagem de resíduos da construção? Isso porque sabemos que, pós-Covid-19, tudo será diferente, especialmente a gestão dos resíduos na ponta.

Sem dúvida, esse cenário exige esforços de toda a cadeia do setor de resíduos da construção, desde as caçambas de entulho até a construtora, geradora e usuária final do agregado reciclado. E, neste momento, obviamente, os empresários estão atentos aos riscos do negócio frente aos desafios impostos pela pandemia. Entretanto, o resultado dessa situação deverá ser trágico para todos os setores e seguramente levará o país a uma crise severa nos próximos anos.

Vale lembrar que as usinas de reciclagem de entulho nasceram para suprir uma demanda da urbanização descontrolada. Afinal, há muito tempo o lixo e o entulho são descartados em locais longe da vista e distante do centro urbano. A reciclagem chega em um momento em que não há mais espaço para o descarte do material, visto que o entulho é menos generoso que o resíduo sólido urbano e oferece riscos iminentes à população.

Nessas circunstâncias é que os empreendimentos que tratam desde tipo de material aparecem. Apesar de sua evidente característica inovadora, ela está inserida em um ambiente extremamente conservador, que é a construção. Assim, naturalmente os negócios demoram a deslanchar, levando anos e até décadas para se pagarem.

Desafios

Daí surgem os desafios. Primeiramente, não há muita margem para sofisticar os empreendimentos e o seu desenvolvimento esbarra na burocracia das prefeituras e dos órgãos públicos. Ademais, há a cobrança de valores absurdamente baixos para a locação das caçambas estacionárias.

Outro ponto é que as usinas são extremamente carentes de procedimentos e sofrem para se estabelecerem no mercado e conseguir o reconhecimento dos órgãos públicos e da construção. Infelizmente, não há ainda, em sua grande maioria, procedimentos padronizados para a coleta, transporte e destinação de resíduos da construção. Além disso, não existem normas, leis ou decreto estabelecendo procedimentos para a proteção ao trabalhador.

Mas, essa pecha em procedimentos e na profissionalização do negócio pode ser uma oportunidade para impulsionar as usinas para um patamar que antes não existia.

Somado a esses dois desafios, a pandemia do novo coronavírus tem afetado o setor de resíduos da construção. Isso significa que o setor, neste cenário, deve se voltar à exposição dos colaboradores ao resíduo que, em grande parte, vem de fontes desconhecidas e potencialmente contaminadas, especialmente em momentos de quarentena.

Nesse sentido, a Abrecon lançou um manual para esmiuçar os procedimentos de remoção, transporte, destinação, reciclagem e até quarentena dos resíduos suspeitos. A publicação, pioneira e a mais completa do gênero no Brasil, foi elaborada com base nas recomendações das associações de reciclagem de RCD da Espanha, Estados Unidos e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esse material é destinado aos setores de usinas de reciclagem, ATT e Aterros de Inertes, a fim de orientar os empreendedores de áreas de reciclagem e transportadores. Essa é uma aposta da Abrecon na evolução da mentalidade empresarial.

Vamos reaprender e ensinar.

Por Levi Torres, coordenador da Abrecon – Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição