A Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) vem atravessando um sério problema com a água. Os relatos mostram graves questões relativas ao odor, cor e turbidez que saem das torneiras de mais de 60 bairros. Com isso, mais de 9 milhões de pessoas estão sendo afetadas. Entenda o problema com a água no RJ.

A Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) afirma que os problemas são causados pela presença de geosmina na água. De acordo com nota técnica publicada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “a geosmina, um composto orgânico volátil, é produzida por algumas bactérias heterotróficas ou cianobactérias, que crescem em abundância em ambientes aquáticos com altas concentrações de nutrientes, especialmente em mananciais que recebem esgotos não tratados. Apesar de conferir odor e sabor em intensidade, que causa objeção ao consumo humano, a geosmina não é tóxica…”

Algas e cianobactérias: vitais ou danosas

Em primeiro lugar, é importante lembrar que as algas e cianobactérias são vitais para nossa sobrevivência. Estima-se que pelo menos metade do O2 do planeta venha destes seres, que atuam no anonimato. Elas já são usadas atualmente como fertilizantes, fontes de alimento e ainda podem ser usadas na produção de biocombustível no futuro.

Por outro lado, algumas algas e cianobactérias podem ser danosas e até mesmo fatais. Os blooms de algas prejudiciais (HABs), como são chamados pelos cientistas, muitas vezes se manifestam através da formação de um tipo de escuma sobre o corpo d’água, podendo ser verde, azul, marrom, vermelho e até mesmo sem cor alguma.

O fenômeno normalmente ocorre quando uma espécie de microalgas ou de cianobactérias passa a dominar e proliferar intensamente, devido ao surgimento de condições favoráveis. É difícil fazer generalizações com relação aos HABs, uma vez que cada espécie tem diferentes causas e impactos. Os cientistas já identificaram cerca de 100 espécies causadoras de blooms tóxicos no oceano. Para água doce, dezenas de espécies com potencial tóxico também são conhecidas.

Sistema de esgotamento sanitário

O relatório da UFRJ ainda ressalta que, “apesar da importância do controle da poluição hídrica da bacia do rio Paraíba do Sul, a atual crise que vive a RMRJ é decorrente da insuficiência do sistema de esgotamento sanitário das áreas urbanas. Como resultado, esgotos sanitários em estado bruto, ou seja, desprovidos de qualquer tratamento, são drenados pelos Rios dos Poços, Queimados e Ipiranga, todos afluentes do rio Guandu, a menos de 50 metros da barragem principal e da estrutura de captação de água do sistema produtor.”

Nessa história uma coisa é certa: se nada for feito, os blooms não vão parar de acontecer e são apenas mais um sinal – assim como a acidificação dos oceanos, desaparecimento do gelo ártico e extinções em massa – de um ecossistema em desequilíbrio.

Um caso nos Estados Unidos

Isso porque, nos Estados Unidos, houve um caso que alarmou a cidade de Toledo (Ohio, EUA), localizada à margem do Lago Erie, um dos 5 grandes lagos norte-americanos. Em 3 de agosto de 2014, seus residentes acordaram com a notícia de que, do dia para a noite, seu suprimento de água havia se tornado tóxico. Eles foram aconselhados não só a evitar de beber a água, mas também de tocá-la. Ou seja, nada de banhos ou de lavar as mãos. Ferver a água só aumentaria sua toxicidade, pois seu consumo poderia levar a diarreias, vômitos, náuseas, tontura e anormalidades na função hepática.

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Posição da cidade de Toledo em relação ao Lago Erie. Fonte: Google Earth

Logo após a notícia sobre a qualidade da água, as garrafas de água rapidamente se esgotaram na região. Em seguida, foi decretado estado de emergência e a guarda nacional foi acionada para levar água potável à população.

A crise hídrica na cidade durou quase três dias. A causa não foi um derramamento de óleo ou uma contaminação por chumbo, mas sim algo totalmente diferente: um bloom de cianobactérias. Normalmente esses eventos ocorrem na presença de grandes quantidades de nutrientes e temperaturas mais elevadas, mas as causas variam e em alguns casos nunca são conhecidas. Porém, ao redor do mundo diversas ligações estão sendo feitas entre os blooms, as mudanças climáticas, a agricultura e os esgotos.

Agricultura

Nesse caso, a agricultura é, pelo menos em parte, a responsável. Nos anos 50 e 60, o lago já sofria com esses problemas, principalmente devido ao tratamento precário do esgoto doméstico e industrial da região. Em determinado ponto, o lago foi considerado morto, mas renasceu após medidas governamentais estipularem um limite para o despejo de fósforo.

Então nos anos 90 os problemas voltaram. A agricultura na região passou de pequenas fazendas com cultivos variados, para grandes fazendas comerciais com plantio essencialmente de milho e soja. A necessidade do emprego de mais fertilizantes para atender ao mercado global, gerou um excesso de nitrogênio e fósforo, que era levado das fazendas até os rios durante as chuvas e tempestades. Esses rios, por fim, chegavam ao lago Erie, trazendo todos aqueles nutrientes das fazendas. Desde então, o lago Erie tem vivido períodos de bloom anualmente.

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Bloom de algas no Lago Erie em agosto de 2019. Fonte: The Guardian

Mudanças climáticas

A maior ocorrência de eventos climáticos extremos, causada pelas mudanças climáticas, afeta o aparecimento de blooms não só pelo aumento do arraste de nutrientes até os corpos d’água, mas também pelo aumento das temperaturas, outro fator de extrema relevância para o surgimento do fenômeno. Cabe ressaltar que, para a maioria dos países emergentes, há também o agravante do tratamento de esgoto precário, que tem potencial para levar enormes quantidades de nutrientes para o meio.

No período após a crise de 2014, a cidade de Toledo gastou US$ 132 milhões para melhorar a sua planta de tratamento de água e lidar com o problema. Mas Ohio não está sozinho nessa história. De acordo com pesquisadores, os blooms estão ficando cada vez mais frequentes e tóxicos ao redor do mundo. Recentemente na Flórida, um bloom conhecido como “maré vermelha” durou 14 meses e matou mais de 100 peixes-boi, 127 golfinhos e 589 tartarugas marinhas, além de toneladas de peixes, que foram arrastados, já mortos, para a costa.

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Um peixe-boi doente é tratado no Hospital Manatee de Lowry Park Zoo, em Tampa, Flórida. Fonte: The Guardian

Referências:

Tradução livre de: Hance, J. Lethal algae blooms – an ecosystem out of balance. The Guardian, 2020. https://www.theguardian.com/environment/2020/jan/04/lethal-algae-blooms-an-ecosystem-out-of-balance

Nota técnica da UFRJ sobre os problemas da qualidade da água que a população do Rio de Janeiro está vivenciando. Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, 15 de janeiro de 2020.

Foto de capa: https://super.abril.com.br/blog/oraculo/qual-e-a-origem-do-nome-do-rio-de-janeiro/

Por Ana Luiza Fávaro