A certificação é um ponto fundamental para uma construção sustentável. E, sem dúvida, equipes multidisciplinares de projeto e consultoria integradas garantem economia e segurança para obtenção da certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Desde 2007, no Brasil, essa certificação, concedida pela GBC Brasil (Green Building Council), já acumulou 1.400 inscrição e emitiu 552 certificados.

Em reportagem da Revista GBC Brasil, o arquiteto Marcelo Nudel, que liderou o grupo de Edificações Sustentáveis na Arup de São Paulo e, atualmente, é sócio-diretor na Ca2 Consultores Ambientais Associados, mostra a importância de haver uma integração entre diferentes equipes para se ter uma construção verdadeiramente sustentável.

Integrar para certificar

Popularmente, o custo das construções sustentáveis ainda é um dos principais entraves que circulam no imaginário de quem precisa tomar decisões acerca de uma obra.

Além do receio de que o orçamento saia do controle, muitos clientes desconhecem as especificidades da certificação LEED. Com isso, acabam contratando profissionais avulsos, que não estão aptos a acompanhar todo o processo da construção e, posteriormente, certificar os empreendimentos.

No entanto, já existem soluções no mercado brasileiro para esse cenário, que podem garantir redução de custos e de riscos no processo de certificação: as equipes integradas.

A proposta é simples. Mas, ao mesmo tempo, inovadora: oferecer a contratação de equipes multidisciplinares de projeto, que incluam as principais disciplinas, como elétrica, hidráulica e estrutura; juntamente com o processo de consultoria para a certificação.

O projeto, ao invés de ter que passar por revisões terceirizadas para verificação de não conformidades, já sai dos escritórios dentro dos padrões de certificação. Ou seja, eles estão prontos para o envio à auditoria dos órgãos certificadores e posterior execução.

Essa oferta já é muito comum fora do Brasil e vem ganhando força no país.

De acordo com Marcelo Nudel, atualmente sócio-diretor na Ca2 Consultores Ambientais Associados, para que se compreendam os benefícios dessa escolha, deve-se olhar para a complexidade intrínseca dos projetos sustentáveis, que exigem uma série de critérios para a obtenção da certificação LEED.

“A edificação verdadeiramente sustentável requer plena interação entre seus subsistemas e suas partes individuais. Sistemas de ar-condicionado e luminotécnica dialogam com a envoltória no equilíbrio entre conforto térmico, lumínico e eficiência energética. No campo da hidráulica, o uso eficiente de água depende, por exemplo, da geometria do edifício no processo de captação de águas pluviais e do projeto de paisagismo na especificação de espécies de baixo consumo”, explica o arquiteto.

Benefícios da contratação integrada

Do ponto de vista operacional do edifício, os principais benefícios da contratação integrada de equipes em projetos sustentáveis, incluindo os certificados, são o funcionamento otimizado e a integração entre sistemas, que culminam em melhorias reais em desempenho energético e no uso da água, além da satisfação e conforto dos usuários e da melhora na eficiência e precisão nos processos de manutenção.

Nudel: “Tentar resolver problemas de forma isolada, com cada profissional atuando nos limites de sua disciplina técnica, é incompatível com o que o mercado internacional entende por um edifício verdadeiramente sustentável”.

A integração de todas as disciplinas técnicas e da consultoria leva à redução de revisões, reuniões e emissões de relatórios. Como resultado, há uma significativa redução nos prazos e o custo final dos trabalhos. Nesse sentido, Arthur Brito, diretor executivo da Kahn do Brasil, acredita que as equipes integradas são a “quebra do estigma do sustentável mais caro”.

Para ele, esse novo paradigma se fundamenta na reversão da atual ineficiência projetual gerada pela sistemática de projetos com disciplinas isoladas. “Equipes de projeto integradas aproveitarão decisões de projeto inteligentes. Um exemplo é a definição conceitual das zonas de tomada de ar em posições com menor incidência de ilhas de calor, equilíbrio entre orientação, tamanho e sombreamento das aberturas, posicionamento de centrais de infraestrutura predial menos demandantes de estruturas de cabeamento e distribuição. Sem falar na solução às constantes incompatibilidades de projeto que geram retrabalhos e aditivos de custos de obra, por falta de integração”, relata Brito.

Metodologia 

Conforme explica Nudel, o processo convencional de consultoria para certificações no Brasil envolve, geralmente de onze a quinze atores, entre cliente, consultor em certificação, arquiteto, paisagista e os diversos projetistas de engenharias complementares.

A metodologia típica de consultoria que se estabeleceu no país tende a ser ineficiente. Além disso, costuma ter inúmeras etapas básicas, incluindo uma série de relatórios longos e reuniões de acompanhamento e diversas revisões do projeto por parte do consultor. Desse modo, a comunicação entre o consultor de certificação e diversos projetistas torna-se complexa e demorada.

“Trabalhando de forma multidisciplinar, integrando os trabalhos dos engenheiros projetistas e do consultor dentro da mesma empresa, incorporadores podem reduzir as etapas da certificação e os custos de projeto, além de controlar melhor os riscos”, reforça Nudel, após analisar o cenário nacional.

Na Arup, há um processo de coordenação interna para a certificação em um total de  3 atores; Arup, cliente e arquiteto. É nomeado um gerente de projeto que possui habilidades multidisciplinares e entende os detalhes e mecanismos dos processos de certificação. Esse gerente é o contato principal do cliente para questões relativas à gestão do projeto, integração e acompanhamento do processo de certificação.

Já o histórico de especialização em projetos hospitalares da Kahn levou a equipe a desenvolver grande familiaridade com todas as disciplinas projetuais para o estabelecimento de um diálogo produtivo. Esse tipo de construção é uma das tipologias mais complexas para se projetar. “Em primeiro lugar, acreditamos no incremento do conhecimento multidisciplinar do arquiteto. Em paralelo, todo projeto integrado deve ter gerente de projetos, que trabalha com a equipe de arquitetura, para garantir a integração sem viés para uma ou outra disciplina. Com a equipe definida, colocamos em prática nossa metodologia de Performance-Based Design, utilizando recursos da tecnologia BIM para subsidiar boas decisões de projeto”.

Produtividade e qualidade

Seguindo essa metodologia, ao final, o empreendedor tem um orçamento seguro dos custos de construção. Outra vantagem é ter uma simulação dos custos de operação do edifício, ou seja, a composição do custeio do ciclo de vida do edifício.

Internamente, as equipes integradas lidam também com um benefício que se traduz em produtividade e qualidade: a agenda motivadora da integração. Brito exemplifica que esse movimento vem atrelado ao alinhamento de visão e valores, especialmente pelas sessões inerentes de debates de ideias inovadoras para conquistar a certificação LEED. “Mas esse fator só é eficaz se o projeto for descomoditizado, não contratado pela lógica exclusiva do menor preço. Em síntese, basta exigirmos mais dos nossos projetistas, transferindo, em contrapartida, a remuneração das consultorias diretamente para os responsáveis pelas decisões de projeto”, opina.

Para Brito, os principais clientes para estes projetos em crescimento são instituições que irão não apenas construir, mas operar seus próprios edifícios. ”Muitas empresas estão alterando seu perfil de prioridades, valorizando sustentabilidade como princípio, não apenas como uma oportunidade de prêmio no valor do imóvel. Quando encontramos cliente com esse alinhamento de valores, a plataforma para um projeto integrado de excelentes resultados é inevitável”.

Ele esclarece, contudo, que o cenário sofreu as consequências com a retração da principal tecnologia associada às certificações em construção verde, as incorporações comerciais. Desse maneira, houve a redução considerável da quantidade de registros para certificação.

Construções sustentáveis no Brasil ainda se restringem a projetos de grande porte

Marcelo Nudel, afirma que a aplicação de processos multidisciplinares no Brasil ainda está em seu início. Desse modo, os primeiros clientes e projetos aplicados no país são de empresas multinacionais, que desejam instalar suas sedes aqui e que já experimentaram os benefícios desse processo em outros países.

No entanto, ele observa uma grande evolução do setor nos últimos dez anos. “Os sistemas de certificação pressionaram fabricantes, construtores e projetistas a mudarem suas práticas”, disse.

De acordo com ele, antes de 2006, pouco se falava em sustentabilidade e eram poucos exemplos de projetos certificados, sendo as referências quase sempre internacionais. “Produtos adequados eram escassos e projetistas eram alheios às práticas sustentáveis. O mercado era passivo e incorporadores aguardavam iniciativas piorneiras para tomar a decisão de investir”, afirmou.

Quase 10 anos depois, o cenário se alterou. “Temos hoje a maioria dos produtos exigidos pelos sistemas de certificação. Os custos foram reduzidos, profissionais se adequaram, e uma importante gama de incorporadores não mais se contenta com o status quo do “fazer o mínimo”, mas buscam inovação”, finalizou Nudel.

Foto: Revista GBC Brasil

Fonte: Ca2 Consultores Ambientais Associados