A baixa qualidade do ar em ambientes internos pode interferir na produtividade dos trabalhadores e levar a ausência e menor aproveitamento nas escolas. Há, ainda, casos mais extremos, associados à “síndrome do edifício doentio”, um conjunto de sintomas – dor de cabeça, dor de garganta e náusea – ligados ao fato de se estar em um edifício específico. Isso significa que melhorar a qualidade do ar interno pode aumentar as habilidades cognitivas e a saúde das pessoas.

De acordo com cientistas, a qualidade do ar em escritórios, casas e escolas pode não ser tão boa devido à liberação de gases e compostos voláteis de móveis, partículas de alimentos e outras fontes, que são reunidos pela falta de ventilação. Então, como os edifícios devem ser projetados para nos tornar mais produtivos?

Uma tendência potencialmente positiva é que os códigos de construção que certificam estruturas para eficiência energética e práticas ecológicas, como o LEED, às vezes premiam pontos por estratégias para melhorar o ar interno, como não usar móveis que emitem formaldeído. À medida que o número desses edifícios cresce, os pesquisadores se perguntam se eles mudarão o jogo para melhorar a qualidade do ar interno.

Evolução da ciência

A qualidade do ar e a eficiência energética nem sempre andam de mãos dadas. Em 1983, a Organização Mundial da Saúde (OMS) observou que edifícios bem fechados, com janelas cerradas, estavam ligados à síndrome do edifício doente. Um número maior de pessoas adoeceu a partir de medidas de eficiência energética implantadas nos anos 70, com ambientes mais fechados. Mas, levou-se muito tempo para que a qualidade do ar interno fosse levada a sério.

A química Charlene Bayer investigou casos de síndrome do edifício doente nos anos 80 e 90. Um escritório pesquisado mostrou opções terríveis de projeto. Os banheiros equipados com desodorizantes automáticos ficavam ao lado dos elevadores, que ao se moverem, criavam um vácuo que aspirava o odor. Como resultado, quando as portas se abriam em um novo piso, as substâncias também eram liberadas.

“O odor foi distribuído por todos os andares. E foi forte o suficiente para pessoas sensíveis começarem a sentir”, disse Bayer. “Isso aconteceu quando estávamos tentando convencer as pessoas de que o ar interno realmente tinha um motivo para existir”.

Trinta anos depois, há mais consciência, segundo Bayer. Mas a boa qualidade do ar ainda é algo que precisa ser gerenciado ativamente. “Os edifícios são muito dinâmicos. E, isso é algo que as pessoas não entendem”. Eles carregam as exalações de centenas de seres humanos e os gases dos trajes lavados a seco. Além disso, absorvem o fertilizante das plantas, o pó dos sapatos, entre outros.

Os prédios possuem sistemas de ventilação mecânica, que forçam a saída de ar e a entrada de ar novo ou possuem janelas, que ficam abertas sempre que possível. No verão, eles incham com a umidade, no inverno podem encolher. Eles não são objetos estáticos, mas sistemas de mudança nos quais vivemos a maior parte de nossas vidas.

Certificação e qualidade interna do ar

Mesmo com o aumento da conscientização sobre a qualidade do ar interno, os edifícios doentes ainda surgem. Conforme explicou o professor de saúde pública em Harvard, Joseph Allen, em sua época de consultor, ele viu prédios que deram errado. “Podia ser uma verificação de rotina quanto a mofo ou amianto. Uma outra vez, ele detectou, entre as pessoas em um prédio de escritórios, um pico suspeito de casos de paralisia de Bell, uma súbita fraqueza dos músculos faciais. Nesse caso, uma nuvem subterrânea de compostos orgânicos voláteis (VOCs) estava vazando no edifício”.

Com isso, Allen passou a entender como os problemas de saúde podem ser resolvidos projetando melhor os edifícios. Atualmente, ele estuda os efeitos cognitivos de diferentes níveis de ventilação. Os esquemas de construção verde fornecem pontos para a construção de determinados objetivos de projeto, como por exemplo, o uso de materiais ecológicos ou a eficiência energética. Alguns apontam características relacionadas à qualidade do ar interno, incluindo maior ventilação.

Portanto, pode parecer que os edifícios com certificação verde são melhores para a qualidade do ar. Mas isso não é necessariamente verdade. Alguns estudos descobriram que eles podem ser abafados. Além disso, muito poucos compararam a qualidade do ar em prédios verdes a prédios não verdes. Menos ainda exploraram o vínculo com saúde e produtividade.

Ademais, os vários esquemas não atribuem igual valor à questão do ar. Ou seja, se um edifício tiver uma pontuação suficientemente alta em áreas como eficiência energética, não há necessidade de seus projetistas tentarem pontos relacionados à qualidade do ar interno.

Ventilação, seu cérebro e seu corpo

Ainda assim, Allen realizou um estudo em que funcionários de escritórios fizeram testes cognitivos em salas que imitavam escritórios verdes. Algumas salas tinham baixos níveis de VOCs, semelhante ao que pode existir quando materiais de construção de baixa emissão são escolhidos. Outros também tiveram níveis mais altos de ventilação.

As pontuações nos testes de tomada de decisão e de pensamento crítico foram mais altas nessas salas do que naquelas que imitam escritórios convencionais, com baixos VOCs e maior ventilação sendo uma combinação particularmente potente.

Fora do laboratório, um estudo particularmente bem elaborado publicado em 2019 analisou pares de edifícios verdes e não verdes em Cingapura. Os edifícios verdes tinham níveis mais baixos de partículas, bactérias e fungos e eram mais consistentes em seus níveis de umidade e temperatura.

Talvez o mais interessante seja que, dos mais de 300 trabalhadores entrevistados no estudo, aqueles em prédios verdes apresentavam menor risco de dores de cabeça, irritação da pele e fadiga durante o trabalho. O estudo não analisou a saúde a longo prazo, uma proposta muito mais cara e difícil. Mas é um começo.

Holly Samuelson, arquiteta e professora da Escola de Design de Harvard, especializada em design para meio ambiente e saúde, sugere que talvez a mudança mais importante em termos de gerenciamento da qualidade do ar proveniente dos códigos de construção ecológica, até agora, seja o fato de terem criado um mercado para acessórios de interiores, tintas e móveis melhores para o ar. Dez anos atrás, havia muito menos opções. “Foi muito difícil, por exemplo, encontrar tinta que atendesse às diretrizes de baixo VOCs. O que era tão difícil de encontrar há 10 anos é normalmente usado agora”.

Correções fáceis

Os edifícios verdes podem ser a esperança de uma nova era de construção que beneficie os seres humanos e o meio ambiente. Do ponto de vista científico, embora a abordagem tenha promessas, é necessário mais trabalho para se chegar a uma conclusão.

Enquanto isso, Allen diz que não é preciso um edifício sofisticado ou até mesmo um novo para melhorar a qualidade do ar interno. “Com um pouco de cuidado, eles podem se transformar em espaços de alto desempenho”, ponderou sobre edifícios mais antigos. Ou seja, é possível executar com mais frequência o sistema de ventilação mecânica ou abrir as janelas quando o ar externo estiver limpo. Pode ainda significar uma reforma do sistema de ventilação, para que seja mais barato desumidificar e esfriar o ar que precisa entrar.

“Os padrões de projeto existentes para manter o ar em movimento nem sempre são seguidos, especialmente nas escolas”, avaliou William Fisk, engenheiro mecânico do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley dos EUA. Isso porque custa dinheiro manter os ventiladores funcionando por mais tempo. Além disso, os edifícios projetados para ter suas janelas abertas podem ser bem fechadas para economizar energia e comprometer a clareza das pessoas em ambientes fechados. Contudo, pode haver benefícios muito significativos ao investir para melhorar a qualidade do ar interno

“Preste atenção à implicação econômica de melhorias na saúde e no desempenho no trabalho”, destacou Fisk. “Eles são grandes, comparados ao que é necessário para melhorar os prédios. Se você pode melhorar o desempenho do trabalhador em apenas alguns por cento, é muito dinheiro. O potencial de benefícios econômicos não deve ser esquecido”, finalizou.

Referência: Tradução livre da matéria redigida por Veronique Greenwood, publicada na BBC – Why indoor air quality matters to our bodies and our brains

Republicada pela Ca2 Consultores Ambientais Associados

Foto: Getty Images