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Os efeitos da pandemia do novo coronavírus no mundo ainda é incerto. Mas, durante o distanciamento social provocado para diminuir o risco contágio da doença, um (minúsculo) benefício está sendo o silêncio. Os habitantes nas cidades relatam que o canto dos pássaros, por exemplo, parece mais alto. Isso pode significar que está havendo menos poluição sonora na pandemia.

É provável que alguns pássaros tenham diminuído seu tom, uma vez que há menos carros, aviões, britadeiras e sopradores de folhas para competir. Contudo, eles podem estar mais dispostos a cantar sob essas condições de relativo silêncio.

Sem dúvida, os benefícios do menor barulho vão além de uma melhor comunicação. Níveis reduzidos de ruído estão associados a maior sucesso reprodutivo, menos migração e menores taxas de mortalidade. Afinal, os pássaros, cujas estratégias de acasalamento dependem do canto, podem precisar percorrer longas distâncias para serem ouvidos.

Ainda na natureza, os oceanos estão mais tranquilos, com cruzeiros temporariamente em espera. Assim, especialistas avaliam que a diminuição do ruído oceânico esteja reduzindo, por sua vez, a produção de hormônios do estresse das criaturas marinhas.

Ademais, os sismólogos perceberam menos ruído sísmico ou vibrações na crosta terrestre. Em Bruxelas, o ruído sísmico causado pela atividade humana está 1/3 menor ante aos níveis pré-pandemia. Como resultado, as ferramentas, que detectam terremotos e outras atividades sísmicas, se tornam mais precisas.

Além dos indícios advindos do meio ambiente, há outras indicações de que está havendo menos poluição sonora na pandemia. O site Cities and Memory está coletando amostras de áudio de pessoas de todo o mundo, o que deixa claro, por exemplo, a imobilidade auditiva das áreas anteriormente ocupadas.

Exposição à poluição sonora

A exposição à poluição sonora crônica está ligada ao alto estresse e a várias doenças físicas, desde as mais perceptíveis, como distúrbios do sono e perda auditiva, até as indiretas, como pressão alta, doenças cardíacas e comprometimento cognitivo, em crianças. Esses danos também afetam a economia, uma vez que os preços da habitação podem cair até 2% por decibel.

Esses efeitos não se espalham uniformemente, com as pessoas mais pobres sofrendo mais com essa situação. Na cidade de Nova York, por exemplo, 9 em cada 10 adultos podem ser expostos a níveis de ruído considerados prejudiciais pela Agência de Proteção Ambiental. A buzina de carro excessiva na Índia tem causado altos índices de perda auditiva em oficiais de trânsito e motoristas de riquixás.

Já na Europa, de acordo com um relatório recente da Agência Europeia do Meio Ambiente (AEA), pelo menos uma em cada cinco pessoas está exposta a níveis de ruído prejudiciais à saúde. Estima-se que, a longo prazo, isso resulte ao menos em 12.000 mortes prematuras no continente anualmente. Aproximadamente o mesmo número de crianças em idade escolar sofre dificuldades de aprendizado devido ao barulho excessivo das aeronaves. E a perspectiva é que os níveis aumentarão devido ao crescimento urbano e às demandas de transporte.

O projeto urbano de longo prazo é um fator mais forte na poluição sonora do que as mudanças comportamentais de curto prazo. Mas, de acordo com o relatório da AEA, essas medidas relacionadas ao projeto constituem uma minoria das políticas de redução de ruído implementadas. Uma possibilidade é que as cidades construam áreas mais tranquilas, como parques. Outra saída seria pavimentar estradas com asfalto mais liso.

Fenômeno de curto prazo

Ainda não existem dados oficiais sobre o quanto o distanciamento social está afetando os níveis de ruído em todo o mundo. Yousef Sakieh, que pesquisa o uso da terra na Universidade Gorgan de Ciências Agrícolas e Recursos Naturais, no Irã, faz uma ressalva em relação aos níveis mais baixos de ruído.

“Embora estejamos produzindo menos ruído, as superfícies impermeáveis ​​como asfalto, concreto, tijolo, pedra e telhados ainda mantêm sua função de amplificação na formação da paisagem sonora do ambiente e os níveis de ruído ainda podem viajar com base na densidade e disposição dessas superfícies”, disse.

Segundo Eulalia Peris, especialista em sons e autora do relatório da AEA, ter menos poluição sonora na pandemia do novo coronavírus é um fenômeno de curto prazo. “Isso porque ela é proveniente de fontes de transporte, como tráfego rodoviário, ferroviário ou aéreo, que estão ligadas à atividade econômica. Portanto, na situação atual, esperamos ver uma redução significativa nesses níveis no curto prazo, devido à menor demanda de mobilidade. No entanto, para obter uma redução dos efeitos negativos do ruído na saúde, é necessária uma redução significativamente mais prolongada. Então, a proteção da população contra o ruído do transporte será alcançada apenas por uma estratégia de mobilidade a longo prazo e sistemas de transporte“.

Obviamente, ninguém teria desejado a situação atual, mesmo com suas pequenas vantagens, como cidades mais tranquilas. Mas o objetivo de converter esses ganhos a curto prazo em benefícios a longo prazo seria uma maneira de tornar o mundo pós-coronavírus melhor do que o pré-coronavírus.

Matéria publicada originalmente na Forbes

Republicada pela Ca2 Consultores Ambientais Associados

Foto: AFP VIA GETTY IMAGES