O mercado de Waste-to-Energy (WTE) está em seu melhor momento no país. Afinal,há um esforço conjunto para que o Brasil siga as melhores práticas internacionais de gestão dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU). De acordo com a Climate Bonds Initiative (CBI), o Brasil pode investir até R$ 145 bilhões em 12 anos no setor de RSU.

Mas, apesar de já possuir oito usinas WTE, de 1 a 5 MW de potência instalada, inclusive com tecnologias de gaseificação e pirólise para tratar RSU e resíduos industriais perigosos, o Brasil ainda tem muito por fazer na área. Isso porque ainda não conta com nenhuma planta WTE mass burning (por incineração) de grande porte em operação. E, no mundo, esse tipo de usina é utilizado em mais de 90% das ocasiões para tratar RSU misturados – classificados como rejeitos e direcionados aos aterros sanitários.

Globalmente, existem 2.450 plantas WTE em operação. No Japão, são 1.072 (muitas delas de pequeno porte), 522 na União Europeia, 339 na China e 20 na Índia. “As plantas WTE são fontes de geração de energia mais limpas que carvão, biomassa ou fósseis, devido aos modernos filtros com água, carvão ativado e películas instalados”, explica Yuri Tisi, presidente-executivo da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (Abren). “Essas usinas geram de 650 kW a 1.000 kW por tonelada de RSU, ao passo que os aterros sanitários com captura de biogás geram apenas 65 kW por tonelada de RSU. Portanto, são de dez a 13 vezes mais eficientes, reduzindo a necessidade de geração termoelétrica fóssil”.

Iniciativas

Nessa linha, Tisi cita algumas iniciativas para a implantação de usinas WTE de maior porte no Brasil. A Fox Haztech, por exemplo, detém as licenças e financiamento para a construção a partir de março de 2020 de uma usina em Barueri. O projeto conta com 20 MW de potência instalada e potencial de tratar até 825 ton/dia de RSU, com tecnologia chinesa.

Já a Ciclus pretende construir uma usina WTE mass burning de 30 MW de potência instalada, para tratar 1.200 ton/dia de RSU. O Grupo Lara também possui um projeto para implementar uma usina de 80 MW de potência instalada para tratar 4.000 ton/dia de RSU na cidade da Mauá (SP). O projeto está na iminência de obter a licença ambiental prévia. Essas iniciativas reforçam que o mercado Waste-to-Energy está em seu melhor momento no país.

No caso da capital federal, há estudos para a realização de parcerias público-privadas no setor. O objetivo é construir duas usinas WTE mass burning de 30 MW de potência instalada cada. Ademais, a previsão é de se ter duas outras usinas de biodigestão anaeróbica de 500 ton/dia cada. “Esses projetos farão como que Brasília torne-se uma cidade modelo na gestão de resíduos, contando com a maior coleta seletiva do país”, avalia Tisi.

Potencial

Aliás, a biodigestão anaeróbica é outra tecnologia importante na gestão de RSU. A técnica é realizada através de reatores que, por meio de fermentação bacteriológica do material biodegradável, produzem elevada quantidade de biogás. Ele pode ser utilizado para geração de energia elétrica (renovável). Além disso, pode ser purificado para produção de biometano, utilizado para abastecimento de veículos e em processos industriais. Ou mesmo, pode ser transportado em gasodutos com gás natural, misturado em qualquer proporção.

As usinas de biodigestão também produzem adubo e biofertilizantes de elevada qualidade, além de outros produtos biodegradáveis. “Para tratamento de RSU, a CS Bio conta com uma usina de biodigestão anaeróbica que trata 300 ton/dia de RSU e lodo de esgoto, gerando 2,8 MW de potência instalada”, exemplifica Tisi. “Em fase final de preparação para entrar em operação comercial, a usina já opera com 50% de sua capacidade”.

Conforme o especialista, o Brasil tem potencial de atender a 1,5% da demanda nacional a partir da biodigestão anaeróbica de RSU e a 5,4% a partir de usinas mass burning – 106 unidades, com 3,1 GW de potência instalada e 236.520 GWh –, totalizando 6,9% da demanda nacional ou 3,9 GW de potência instalada. “Considerando apenas as regiões metropolitanas, o potencial estimado de usinas WTE é de 2,4 GW (1,85% da matriz nacional). Haveria, dessa forma, uma geração anual de 14.400 GWh (2,74% do total de geração), com fator de capacidade acima de 90% e energia injetada perto dos consumidores (geração distribuída)”, detalha Tisi.

Desafios

Todavia, além da implementação de um maior número de usinas, há outros desafios para que o Brasil possa alcançar índices mais elevados de sustentabilidade na gestão de RSU. “O maior deles se refere à venda da energia gerada pela usina WTE. Logo após, está a remuneração do serviço de destinação ambientalmente adequada de RSU, que ocorre por meio de taxa ou tarifa (tipping fee)”, explica Tisi.

Por esse motivo, a Abren tem trabalhado para que os investidores possam obter contratos de venda de energia de longo prazo (Power Purchase Agreement – PPA), seja no mercado livre, regulado, ou por meio de chamadas públicas a serem promovidas pelas empresas de distribuição de eletricidade, tendo por meta permitir a utilização de project finance para viabilizar a obtenção antecipada de recursos utilizados na construção das usinas.

Evento debate o tema em SP

Pelo mercado Waste-to-Energy está em seu melhor momento no país, a BW Expo e Summit 2020 – 3ª Biosphere World contará com um Núcleo Temático sobre esse assunto. A curadoria será do presidente da Abren. “Temos muita sinergia com a feira, já que nosso propósito é utilizar a tecnologia para melhorar a sustentabilidade na gestão de RSU no Brasil. A BW 2020 irá ajudar a divulgar as melhores práticas de gestão de RSU, conscientizando a população sobre tais questões”, diz ele.

Nesse sentido, o evento contará com outros núcleos temáticos. São eles: Agronegócio Sustentável, Conservação de Recursos Hídricos, Construção Sustentável, Economia Circular, Sustentabilidade Digital, Transformação Energética – Hidrogênio e Valorização de Áreas Degradadas. A BW 2020, que ocorrerá entre 6 e 8 de outubro, proporcionará uma experiência para todos os seus participantes. Isso por ser o único evento multidisciplinar do mercado direcionado exclusivamente às tecnologias voltadas à sustentabilidade do meio ambiente.  

Referência: Revista M&T – Mais energia, menos resíduos

Foto abre: Agrivert