As mudanças ocorridas nos ambientes corporativos refletem a transformação dos comportamentos e hábitos da sociedade. Desse modo, os arquitetos têm papel central no debate de ideias e tendências para a construção de locais que atendam essa nova realidade, moldando, assim, o futuro dos espaços de trabalho.

Além disso, tanto os arquitetos como os incorporadores de edifícios e espaços corporativos, sejam eles especulativos ou Built to suit, têm a oportunidade de influenciar decisões chave de projeto, que prepararão as bases para que os ocupantes futuros possam criar condições adequadas à seus espaços de trabalho.

Mas, para isso, cinco pilares fundamentais precisam ser observados: mobilidade, flexibilidade, colaboração, sustentabilidade e saúde, bem estar e qualidade de vida.

Mobilidade

A busca por qualidade de vida e menos tempo gasto em deslocamentos demandam mudanças. Ou seja, formas de trabalho descentralizadas e redução de custos fixos de escritório. Outro exemplo é a prática de home office, cuja tendência é se tornar mais comum. A tecnologia das comunicações irá tornar deslocamentos e até o escritório cada vez menos necessários.

O espaço físico de trabalho do futuro deve estimular o funcionário a frequentar esses espaços, fornecendo múltiplos usos locais, Entre os quais, pode-se citar como exemplos, academias, comércio, creches, espaços de co-working e equipamentos culturais.

A mistura entre público e privado em espaços comuns fará parte dessa transformação, convidando, dessa forma, a população a utilizar e manter vivos esses equipamentos também fora do horário comercial.

O edifício corporativo, portanto, se torna multiuso, com térreo e embasamento integrado com a malha urbana pública. Diferentemente do que é visto: lobby privativo vasto e sem função social e comercial.

Flexibilidade

A força de trabalho se torna cada vez mais multicultural, diversa em faixas etárias e em necessidades cada vez menos padronizadas. Uma população heterogênea deve ter condições de ocupar espaços de escritórios flexíveis, adaptáveis às necessidades individuais. A retenção de funcionários no futuro dependerá também do bem estar físico dos indivíduos.

Os espaços não são mais vistos como um bem imóvel da corporação, mas como uma ferramenta de estímulo à criatividade e produtividade. Instalações com task lighting (iluminação individual de tarefa), task cooling (insuflamento de ar pelo piso, conectado às estações de trabalho), task based seatting (flexibilidade de assentos), além de elementos sombreadores internos e externos, auxiliam no controle individual de conforto térmico, lumínico e de ofuscamento. Ademais, proporcionam redução de energia em operação.

O incorporador de produtos especulativos tem a oportunidade de oferecer infraestrutura para que sistemas com operação individualizada possam ser explorados pelos ocupantes.

Colaboração

Cada vez menos os escritórios se parecem com uma série de caixas isoladas sem comunicação. A tendência futura é a integração física entre departamentos e áreas distintas das empresas. Permitir comunicação e encontro entre funcionários de áreas diversas afeta diretamente o resultado dos processos produtivos, estimula a cooperação e a criatividade.

O incorporador pode fornecer as bases para esse processo ao pensar em projetos capazes de estimular a comunicação entre os usuários. E, ainda, espaços que possuam espaços de convivência e conexão entre o interno e externo e que facilitem o encontro informal entre funcionários.

Sustentabilidade

Assim como ocorreu em muitos países, os sistemas de certificação tornam-se commodities de projeto. Mas, ao mesmo tempo, vão se tornando muito mais exigentes ao passar dos anos. Um projeto que há alguns anos foi classificado como LEED Platinum, possivelmente hoje, seria certificado como Silver.

A disseminação dos sistemas de certificação farão com que a real operação eficiente de um edifício seja cada vez mais valorizada. Além disso, também propiciaram exigências cada vez maiores quanto à eficiência energética.

O incorporador que conseguir compor um sistema integrado envolvendo fachadas, ar condicionado e sistemas luminotécnico terá, sem dúvida, mais sucesso nesse processo.

O escopo de entrega típico de um incorporador de edifícios especulativos deverá ser revisto. Isso porque assumir responsabilidade pelo planejamento e entrega de sistemas que afetam o consumo energético é a melhor forma de se obter sucesso na busca por eficiência energética e conforto térmico.

Os edifícios de escritório tendem a observar maior valorização de elementos de eficiência de fachadas, além da exploração de sistemas de ar condicionado de menor consumo, como as centrais de água gelada com distribuição de ar VAV, insuflamento pelo piso ou vigas geladas (chilled beams).

Uma pesquisa da “Lightspeed” mostrou que 9 em cada 10 jovens da geração Y acham importante trabalhar para uma empresa comprometida com a sustentabilidade. Levando em consideração que a geração Y passa a ser a geração dominante dentro das empresas, esse pensamento também reflete diretamente nos espaços de trabalho.

Saúde, Bem Estar e Qualidade de Vida

Essas preocupações estão diretamente ligadas às quatro anteriores, afinal passamos mais de 90% do tempo em ambientes fechados.

De acordo com o WGBC (World Green Building Council), na composição do custo de ciclo de vida de uma edificação comercial, 8% está relacionado aos custos com construção, operação e manutenção. Os outros 92% são as pessoas que ocupam esses edifícios, entre salários e benefícios.

Olhando por esse foco, faz muito sentindo planejar ambientes que proporcionem melhor qualidade de vida, saúde e bem-estar para as pessoas.

Imagine o quanto uma empresa não pode economizar em sinistralidades médicas, absenteísmo, presenteísmo, turnovers e despesas jurídicas se o local de trabalho for pensado cuidadosamente na saúde (física e mental) de seus colaboradores!

Desenvolver projetos que quebrem o ciclo das facilidades modernas de ter tudo “a mão”, que estimule o uso de escadas e faça as pessoas percorrem distâncias mais longas internamente são fatores que também contribuem para a melhoria da saúde física.

Por fim, devemos lembrar sempre que existe uma relação indissociável entre a sustentabilidade e a busca do bem-estar.

Pessoas

Afinal, estamos sempre falando de pessoas. Os negócios (sustentáveis ou não) são gerados por pessoas e entre pessoas. Da mesma forma que espaços são projetados (sustentáveis ou não) por pessoas para pessoas.

É redundante, mas na prática é assim que funciona. Portanto, pensar em projetos sustentáveis é também pensar nas pessoas que os ocupam e na geração de novos negócios que eles podem trazer.

Quanto melhor as condições físicas do espaço ocupado, com qualidade acústica, iluminação com cor adequada às atividades para cada tipo de ambiente, ergonomia ou taxas de renovação de ar elevadas, mais produtivos e engajados os ocupantes estarão para gerar novos negócios.

Assim, quando falamos de sustentabilidade e saúde e bem-estar dentro dos espaços, são vários os fatores que influenciam os ocupantes: desde a forma como eles se deslocam para o local e no local, a forma como os layouts são dimensionados e distribuídos, e preocupações com a qualidade desses espaços como o conforto acústico, lumínico, ergonomia, qualidade da água e do ar, entre outros.

Nessa linha, o USGBC (United States Green Building Council) vem disseminando (assim como ocorreu com o sistema LEED nos últimos anos) o sistema de certificação WELL, baseado nas melhores práticas em conforto ambiental, saúde e bem estar de espaços construídos.

Com vista nos novos desafios no processo de projeto de espaços corporativos, entendemos que a certificação WELL está para o início do século 21, assim como o LEED esteve presente (e ainda está) na transformação de mercado nas últimas décadas.

Por Marcelo Nudel

Fonte: Ca2 Consultores Ambientais Associados

Foto: Workpod Zurich | Meury Arkitectur