A “era do plástico” trouxe diversos benefícios, mas também problemas significativos, incluindo o acúmulo de microplástico (MP) no ambiente aquático. Esse é um assunto extremamente importante e que vem ganhando atenção nos últimos anos. Nesse sentido, qual é o papel das estações de tratamento de esgoto (ETE) na poluição por microplásticos nas bacias hidrográficas?

Apesar de se acreditar que os MPs presentes no ambiente marinho têm origem fluvial, este é um dos poluentes emergentes em rios menos estudados. De acordo com um artigo publicado na Environmental Science and Pollution Research, pressupõe-se que  as ETE sejam a principal fonte de MP nas bacias hidrográficas. Isso porque elas recebem esgoto de indústrias que manipulam e produzem o material. Além disso, há a questão do esgoto doméstico, que também pode conter plástico.

Os MPs são definidos como pedaços de plástico com diâmetro inferior a 5 mm. Eles têm origem diversa, vindo de produtos de beleza, têxteis e embalagens. Entre os efeitos da presença desse poluente no ambiente estão desde a exposição de diversos organismos à poluentes carregados pelo plástico até sua ingestão direta por eles.

MÉTODOS

Localidades. Foram escolhidas localidades pelo norte da Inglaterra, com o objetivo de abranger uma diversidade de características, tanto em equivalentes populacionais (EP), quanto em tecnologias usadas pela ETE e características de bacia.

Amostragem. Atualmente não há metodologias padronizadas para o monitoramento de microplástico em rios, porém foi utilizada a metodologia comumente preferida por outros artigos. Uma rede com malha de 300 μm foi usada para retenção de MPs por 15 minutos. As amostras então foram removidas da rede com uso de água deionizada e refrigeradas a 4ºC.

Análise laboratorial. Primeiramente, as amostras foram separadas em uma sequência de 6 peneiras de diâmetros 5.6 mm, 4 mm, 2 mm, 1 mm, 500 μm e 250 μm. O material retido nas peneiras de 5.6 mm foi descartado, bem como qualquer matéria orgânica identificada. O material restante foi então transferido para placas de petri e analisado com um microscópio estereoscópico (Brunel Microscopes Ltd, UK). Cada amostra foi classificada em uma das categorias: pellets/beads, fibras ou fragmentos/flocos.

RESULTADOS

Contribuição de ETEs para a carga de microplástico. A quantidade de MP aumentou à jusante das ETE monitoradas, com uma razão jusante/montante sempre superior a 1, mas normalmente entre 1 e 3 (para 19 das 28 análises). Apenas em 4 situações a quantidade à montante foi superior do que à jusante.

Composição do microplástico. A composição de plásticos tanto a montante quanto a jusante foi basicamente de fragmentos e fibras, sendo que relativamente poucos pellets foram encontrados (menos de 10% do total).

DISCUSSÃO

Fontes de microplástico

O fato da quantidade de MPs ter sido superior a jusante das ETE estudadas confirma que elas são uma das principais fontes, o que está de acordo com os outros poucos trabalhos que abordaram este tema. Além disso, foram observadas variações na poluição de cada uma das estações ao longo do tempo, assim como em outros trabalhos. Estudos futuros devem buscar a causa destas variações.

Cabe ressaltar que microplásticos foram encontrados a montante em todas as análises. As fontes podem ser outras ETE, porém para alguns casos não são encontradas estações a montante, o que indica que existem outras fontes significativas de poluição que não as ETE. Nestes casos, é encontrada uma área agrícola à montante, que pode fazer uso de lodo contaminado com microplástico.

CONCLUSÃO

Os resultados indicam não haver um padrão consistente na composição de MP encontrado nos rios, mas que há predominância de fragmentos, fibras e flocos. Além disso, o trabalho pôde concluir que os esforços de conservação devem focar em uma gama diversa de fontes de MP, não somente nas ETE.

Por Ana Luiza Fávaro