Um grupo de pesquisadores de Cambridge realizou um trabalho que investigou o papel das ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto) no recebimento de afluentes hospitalares para a disseminação de um patógeno resistente a antibióticos.

A linhagem da bactéria Enterococcus faecium resistente ao antibiótico vancomicina (denominada VREfm) é uma das principais causadoras de infecção relacionadas à hospitais e afeta particularmente pacientes gravemente doentes e imunocomprometidos. Este problema tem sido impulsionado pelo surgimento e disseminação global de linhagens pertencentes ao grupo de E. faecium adaptado a hospitais, designado como A1.

Os isolados deste grupo são caracterizados pela resistência aos antibióticos ampicilina e fluoroquinolona, alta plasticidade genômica e acúmulo de genes adquiridos horizontalmente, codificando fatores de virulência e resistência a antibióticos. Isso inclui resistência à vancomicina, a principal droga utilizada nos casos de infecção por E. faecium resistente à ampicilina.

O estudo do transporte de patógenos hospitalares precede a infecção, e estratégias efetivas para preveni-las são construídas com base na compreensão de como e onde as pessoas entram em contato com o patógeno. Estudos genômicos de infecção hospitalar confirmaram que a transmissão do clado A1 de E. faecium é comum. Contudo, um ponto importante é saber se a disseminação deste grupo está ligada exclusivamente a ambientes hospitalares ou se outras fontes externas de contaminação têm papel no processo.

Aqui descrevemos um estudo que teve como objetivo usar águas residuais para entender até que ponto E. faecium hospitalar é disseminada na comunidade. Para isso foi necessária uma abordagem integrada que combinou dados de sequenciamento genômico microbiológico e epidemiologia.

Método

A análise foi realizada utilizando amostras de 20 plantas de tratamento de esgoto, sendo 10 que recebem esgoto hospitalar e outras 10 que não recebem. Além disso, todas apresentaram pelo menos tratamento secundário, enquanto que apenas 10 realizam tratamento terciário. Por fim, três delas fazem tratamento utilizando radiação UV. Amostras antes e após o tratamento foram colhidas de todas as instalações. Por fim, uma amostra foi colhida no Cambridge University Hospitals (CUH), um grande hospital da região.

papel das ETEs

Figura 1. Mapa indicativo dos pontos de coleta. Os pontos vermelhos indicam as fontes de bactérias isoladas de corrente sanguínea humana.

Discussão

Este levantamento genômico sistemático de E. faecium em águas residuais indica que as linhagens hospitalares de VREfm estão difundidas em esgotos por todo o leste da Inglaterra, o que complementa estudos anteriores restritos a águas residuais coletadas a jusante de hospitais.

O tratamento do efluente não impediu a contaminação ambiental por estas linhagens, sendo que a maioria das plantas liberou E. faecium resistente para o meio ambiente. São necessários controles mais rígidos para evitar que esses organismos disseminem-se nos corpos d’água desta forma. O tratamento com luz ultravioleta foi usado em três plantas estudadas e foi eficaz na descontaminação. Isto representa uma solução já pronta e que reduziria a contaminação ambiental com bactérias resistentes de forma geral. Por outro lado, a presença de organismos resistentes em todas as plantas de tratamento estudadas é extremamente importante. As análises genômicas de 9 plantas (incluindo as que não recebem esgoto hospitalar) apresentaram grande relação com a bactéria encontrada em infecções sanguíneas do CUH, o que fortalece a hipótese de que se tratam de linhagens originárias dos hospitais.

O risco à saúde humana relacionado com a liberação contínua de VREfm no ambiente ainda é incerto, porém pode ser controlado através da tomada de medidas mais efetivas de descontaminação do efluente, tanto em nível hospitalar, quanto em nível municipal.

Por Ana Luiza Fávaro

O artigo foi publicado originalmente na revista Genome Research.