A atividade humana traz diversos benefícios para o desenvolvimento social e econômico das sociedades. No entanto, dependendo da atividade, constata-se um impacto negativo ao meio ambiente e aos organismos vivos. Um desses efeitos acontece no fundo do mar. O aumento do consumo de cosméticos e do uso de protetor solar vêm ameaçando o ambiente marinho, provocando o chamado branqueamento dos corais.

Nos últimos 20 anos, um branqueamento massivo e crescente de corais tem sido observado, tanto em relação à sua frequência, quanto à sua extensão. A causa tem sido associada principalmente às mudanças climáticas (mais especificamente ao aumento de temperatura dos oceanos), alterações na incidência de radiação e a presença de patógenos e poluentes.

Esse fato é confirmado porque foram encontrados tanto em água doce quanto em água salgada níveis detectáveis de compostos presentes em filtros solares. De fato, esses produtos estão sendo banidos de diversos locais protegidos, devido ao seu potencial tóxico para a biota. Afinal, os filtros ultravioleta podem bioacumular nos organismos, enquanto que outros ingredientes podem ser degradados e transformados em produtos ainda mais tóxicos.

Pesquisa

Dessa forma, para averiguar os efeitos tóxicos dos ingredientes presentes nos protetores solares sobre os corais, uma equipe de três departamentos da Universidade Politécnica de Marche (Itália), realizou diversos estudos independentes com três espécies de coral. A partir disso, puderam obter resultados que comprovassem a ligação destes produtos com o branqueamento.

Em todas as análises realizadas a adição de protetor solar, mesmo que em baixas concentrações (como 10 µL/L), levou à produção de grandes quantidades de muco (expelindo as algas dos seus tecidos) e ao branqueamento total dos corais dentro de 96 horas. Além disso, observaram que o branqueamento foi mais acelerado em maiores temperaturas, o que indica uma sinergia dos dois parâmetros e ressalta a relevância das alterações climáticas.

corais

Impacto do filtro solar na espécie de coral Acropora. Não tratados (castanho) e tratadas (branqueadas) de (A) Acropora cervicornis (Mar do Caribe, México); (B) Acropora divaricata (Mar de Celebes, Indonésia); (C) Acropora sp. (Mar Vermelho, Egito); e (D) Acropora intermedia (Mar de Andaman, Tailândia). As imagens foram tiradas 62 horas após o início das incubações com os filtros solares. Barra de escala = 2 cm.

Estes resultados dão fortes sustentação científica sobre o potencial destrutivo destes produtos nos ecossistemas marinhos, mas em especial nos recifes de coral. Pelo fato de a atividade humana próxima aos recifes estar aumentando progressivamente, prevê-se que os impactos dos protetores solares sobre os corais podem crescer significativamente.

Assim, pesquisas futuras devem buscar por alternativas de filtros solares que não sejam danosos aos ecossistemas marinhos. Afinal, os recifes de corais estão entre os ecossistemas mais diversos e produtivos do planeta, abrigando uma enorme biodiversidade e sustentando meio bilhão de pessoas

Por Ana Luiza Fávaro

Referências: Danovaro, R. et al. Sunscreens Cause Coral Bleaching by Promoting Viral Infections. Environmental Health Perspectives. 116(4), 2008.