O alto risco de contágio pelo novo coronavírus tem reforçado a necessidade de cuidar ainda mais dos procedimentos de coleta e descarte de Resíduos dos Serviços de Saúde (RSS). Nesse sentido, processos que objetivam a recuperação energética dos resíduos hospitalares podem ser uma solução benéfica na atual conjuntura.

“O tratamento térmico de resíduos encontra-se nas recomendações do Organização Mundial da Saúde (OMS)”, afirma Walfrido Ataíde, consultor em Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos. Ele utiliza-se do calor para a esterilização/destruição do RSS, excetuando-se a autoclave e os micro-ondas.

De acordo com Ataíde, as rotas termoquímicas utilizam-se de quatro tecnologias: combustão/incineração, pirólise, gaseificação e gaseificação a plasma. Esses modalidades possibilitam a recuperação energética, tanto do calor produzido na incineração, quanto de gases e combustíveis líquidos e sólidos resultantes do processo de pirólise e gaseificação, para a geração de vapor ou aplicação como combustível para geração de eletricidade.

Yuri Schmitke, presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN), ressalta que a incineração tem sido a tecnologia mais utilizada. “Para usinas menores é possível somente o aproveitamento de calor, que pode ser utilizado para aquecimento ou resfriamento de ambientes prediais. Mas as unidades no Brasil não fazem isso”.

Usinas WTE Mass Burning

Entretanto, muitas usinas de incineração de grande porte possuem sistema de armazenagem e alimentação independente para incinerar os RSS. Com isso, a combustão é feita de forma segura junto aos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), resultando em geração de eletricidade e aproveitamento de calor. Além disso, há a reciclagem de até 24% dos materiais pós processo de incineração, sendo de 10 a 14% de metais ferrosos e não ferroso e 9% de cinzas petrificadas, que podem ser reutilizadas na construção civil e em rodovias.

Schmitke explica que apenas de 1 a 3% das cinzas em volume não são reaproveitadas. Dessa maneira, é preciso passar por processo de tratamento e ser destinadas em aterro classe 1, mas sem risco algum de contaminação. Essas usinas, conhecidas como waste-to-energy (WTE) mass burning, são classificadas como limpas e suas emissões irrelevantes. “Assim, são indicadas como eficazes na mitigação das emissões dos gases de efeito estufa”, acrescenta.

Na avaliação do presidente da Abren, as usinas WTE são usadas em 90% dos casos de recuperação energética de RSU no mundo. Como resultado, geram benefícios ao meio ambiente, incluindo redução dos gases de efeito estufa em 8 vezes, eliminação do risco de contaminação do solo e dos recursos hídricos.

Pirólise e gaseificação

Sobre outras rotas termoquímicas para recuperação energética dos resíduos hospitalares, Ataíde analisa que as tecnologias pirolíticas são processos com grande potencial de transformação dos resíduos em combustíveis e matéria-prima.

Ele descreve que a pirólise consiste no aquecimento dos resíduos em temperaturas que variam entre 400ºC a 1.100ºC, em ambiente sem oxigênio. Os reatores pirolíticos têm duas câmaras separadas e não comunicantes, sendo uma destinada à produção de calor e outra que recebe o material a ser tratado. Nessas condições, o material não oxida, portanto não produz chama. Ele é decomposto formando novas substâncias: o carvão (coque ou biochar), o óleo pirolítico e outros gases, sendo que tais produtos possuem alto poder calorífico, equivalentes aos óleos combustíveis derivados de petróleo e do gás natural. Ademais, existem processos modernos de pirólise que geram energia elétrica em grandes quantidades.

Já a gaseificação é uma das fases do processo pirolítico. Constitui-se na degradação térmica dos resíduos na presença de um agente químico, usualmente o oxigênio puro, o ar do ambiente ou vapor d’água. Mas diferente da combustão (incineração), a gaseificação trabalha com quantidades menores de oxigênio. A temperatura da gaseificação situa-se na mesma faixa da pirólise, dependendo da tecnologia de reator empregada. O principal produto gerado é o gás de síntese (syngas), composto em grande parte por monóxido de carbono (CO) e hidrogênio (H2). Esses gases podem ser convertidos em diferentes produtos químicos, além terem uso imediato como combustível limpos para a produção de eletricidade.

Pré-tratamento

Antes de tudo, há a questão do manejo correto na coleta dos RSS. Eles precisam estar acondicionados em sacos plásticos resistentes, nas cores identificativas dos conteúdos e com o símbolo de resíduo infectante (branco leitoso ou vermelho).

Ataíde alerta que na recepção dos resíduos na unidade, deve-se tomar todos os cuidados de proteção dos trabalhadores, evitando-se ao máximo o contato com as embalagens. “É obrigatório, desse modo, o uso de todos os equipamentos de proteção individual, incluindo macacão, avental impermeável, botas de borracha, luvas vinílicas 3/4, manguito, máscara, viseira, capacete, entre outros”, ressalta.

Logo após, existe um pré-tratamento para esses resíduos serem levados às usinas de recuperação energética. O especialista explica que eles devem ser triturados e homogeneizados para permitir o máximo contato com o calor. A temperatura de reação deverá estar no mínimo entre 400ºC e 600ºC.

Fonte: ABREN

Foto abre: C-Power Plant / Unido Japan