A pandemia do novo coronavírus está alarmando o mundo. São mais de 1 milhão de pessoas infectadas e mais de 50 mil mortes (dados atualizados em 2 de abril). Contudo, diferentemente da resposta ao aquecimento global, ela vem mostrando como líderes políticos e corporativos podem tomar ações radicais de emergência sob o conselho de cientistas para proteger o bem-estar humano. Desse modo, os principais ativistas afirmam que os governos deveriam agir com a mesma urgência em relação ao clima. Isso porque há evidências de que a crise da saúde está reduzindo as emissões de carbono no planeta mais do que qualquer política.

A China, fonte da doença, é o maior emissor de carbono do mundo. De acordo com um estudo da Carbon Brief, as ações adotadas pelas autoridades chinesas para conter a disseminação do coronavírus demonstraram inadvertidamente que os cortes de 25% de dióxido de carbono podem resultar em menos tráfego e ar mais limpo, com apenas uma pequena redução no crescimento econômico.

Se essa tendência continuar, os analistas dizem que é possível alcançar a primeira queda nas emissões globais desde a crise financeira de 2008. Mesmo uma desaceleração do COpoderia dar tempo para ações climáticas e, mais importante, inspirar mudanças de comportamento a longo prazo, principalmente nas viagens.

Menos tráfego aéreo

Seguindo os conselhos das autoridades de saúde, milhões de pessoas estão evitando viagens escolares, compras e deslocamentos no escritório. Os bispos italianos não estão realizando missas. Em grande parte da China central, as fábricas haviam sido fechadas, com efeitos indiretos em todo o mundo.

O vírus interrompeu vários eventos relacionados à indústria de combustíveis fósseis. O Salão Automóvel de Genebra, na Suíça, foi cancelado. Em Houston, a gigantesca CeraWeek voltada para executivos de petróleo e gás foi cancelada, assim como o grande prêmio da Fórmula 1 em Xangai.

Mais economia de carbono virá dos cancelamentos de outras conferências internacionais. Donald Trump adiou a cúpula com os líderes da Associação das Nações do Sudeste Asiático. A London Book Fair, o Mobile World Congress em Barcelona, ​​a Game Developers Conference, em São Francisco, o evento ao vivo da Adobe e até a South by Southwest, a enorme conferência de cinema, música e mídia em Austin, Texas, foram canceladas. Como resultado, milhares de toneladas a menos de CO2 na atmosfera, uma vez que dezenas de milhares de voos foram cancelados.

Os mundos do entretenimento, moda, esporte e turismo foram igualmente afetados. Com isso, o tráfego aéreo global diminuiu 4,3% em fevereiro, reduzindo as emissões de carbono no planeta. Mas Rob Jackson, presidente do Global Carbon Project, disse que isso só seria significativo se resultasse em mudanças comportamentais de longo prazo, principalmente na aviação, que é uma das fontes de emissões que mais cresce.

“Se isso pudesse mudar a forma como viajamos, poderia nos levar a ter mais reuniões virtuais”, disse Jackson. “Se as emissões de gases caírem temporariamente é ótimo, mas não será uma mudança significativa a longo prazo. A não ser que chegue uma recessão global, contundo ninguém queria isso em 2008 e ninguém quer agora”.

Sinais encorajadores ou mudanças temporárias

Por outro lado, existem sinais encorajadores. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial substituirão seu habitual encontro de primavera em Washington por uma teleconferência virtual. Essa é uma medida de emergência pontual, mas as economias voltadas ao baixo carbono podem solicitar que essa prática se torne norma a cada ano.

A questão, portanto, é se as mudanças são temporárias. Os ganhos climáticos da China são estimados em cerca de 200 megatoneladas de CO2. Entretanto, isso pode durar pouco com a reabertura das fábricas e o aumento da produção para compensar a perda de negócios. O presidente Xi Jinping indicou que o governo fornecerá pacotes extras de estímulo para ajudar a economia a se recuperar. Desse modo, alguns relatórios sugerem que essa medida pode ser contraproducente para o clima, porque pode significar um crescimento da produção de carvão ou o relaxamento de controles ambientais. A última vez que a China sofreu uma grande ameaça ao crescimento do PIB foi durante a crise financeira de 2008. Em um ano, gastos extras do governo garantiram que a economia e o CO2 voltassem a uma trajetória ascendente.

Os analistas avaliam ainda que é muito cedo para saber se o coronavírus está reduzindo as emissões de carbono no planeta, empurrando-as para o caminho descendente necessário para que o mundo tenha alguma esperança de manter o aquecimento global em um nível relativamente seguro de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Isso dependerá do alcance da pandemia e se os efeitos econômicos serão prolongados.

Desaceleração das emissões

Conforme Corinne Le Quéré, professora de ciências da mudança climática na Universidade East Anglia, até agora a crise só deve desacelerar o crescimento de CO2 e não revertê-lo. “Nos últimos 10 anos, as emissões cresceram a uma taxa anual de 1%, ou seja, de cerca de 317 megatoneladas. Então, seria preciso uma redução muito grande para ver uma queda neste ano. É plausível, entretanto acho que não podemos afirmar nesta fase”.

Ainda assim, Corinne observou que uma desaceleração ganharia tempo para ação, como avanços na tecnologia, preços mais baixos de fontes renováveis ​​e mais pressão pública sobre os governos para mudarem de rumo. A resposta ao coronavírus também pode demonstrar que etapas radicais podem funcionar.

“Você pode ver que, quando os governos veem uma emergência, eles agem imediatamente com medidas proporcionais à ameaça. Essa avaliação ainda não foi feita no caso das mudanças climáticas, embora os governos tenham declarado uma emergência”, analisou a professora da Universidade East Anglia.

Se o surto continuar, há preocupações de haver o o cancelamento da cúpula UE-China em Leipzig, em setembro. Certamente, isso seria uma má notícia para os esforços diplomáticos com o propósito de construir uma aliança climática entre essas duas potências.

Foto: Leon Neal/Getty Images

Aprendizado

O autor e ambientalista norte-americano Bill McKibben escreveu que nenhum ambientalista deve receber bem uma crise, mas eles podem aprender com ela. “Completamente à parte o número de pessoas, a interrupção econômica não é uma maneira politicamente viável de lidar com o aquecimento global a longo prazo. Ela também prejudica os motores de inovação que nos trazem, digamos, painéis solares baratos”, comentou.

No entanto, McKibben está otimista sobre a demonstração de que as pessoas podem mudar. “Vale a pena notar como milhões de pessoas parecem ter aprendido novos padrões. As empresas, por exemplo, estão se esforçando para permanecer produtivas, mesmo com muitas pessoas trabalhando em casa”, ponderou.

“A ideia de que precisamos viajar todos os dias para um local central para realizar nosso trabalho pode ser resultado de inércia, mais do que qualquer outra coisa. Diante de uma necessidade real de ir com o mouse, ao invés do carro, talvez veremos que os benefícios da flexibilidade no local de trabalho se estendem a tudo, desde o consumo de gasolina até a demanda de amplos parques de escritórios”, finalizou McKibben.

Referências: Tradução livre do artigo Coronavirus could cause fall in global CO2 emissions de autoria de , publicado no The Guardian.

Foto abre: Kevin Frayer/Getty Images