A produção de energia por meio do uso daquilo que não pode ser reciclável nos resíduos domésticos e industriais é uma realidade em diversos países do mundo. Atualmente, são mais de 2.400 usinas waste-to-energy em operação. que geram, em média, de 460 a 600 kWh de energia por tonelada de resíduo sólido urbano (RSU). Dessa forma, a recuperação energética de RSU pode ser uma solução econômico-ambiental para um futuro melhor.

De acordo com Yuri Schmitke, presidente da Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN), as usinas WTE apresentam diversas vantagens. Ele cita, por exemplo, que elas não são poluentes, se situam no centro de carga e possuem baixíssimo nível de intermitência.

Assim, para apresentar diversos aspectos relacionados à recuperação energética de RSU, a entidade vem promovendo eventos online com a participação de especialistas na área e apoio da BW 2020. Primeiramente, foi realizado no dia 14 de abril o webinar sobre recuperação energética de resíduos hospitalares. Ele tratou dos seguintes tópicos: rotas tecnológicas utilizadas para destinação de resíduos hospitalares; benefícios de saúde, ambientais, sociais e energéticos de uma proposta de tratamento térmico dos resíduos hospitalares; propostas para mitigação dos efeitos da Covid-19 e economia Circular dos RSH com aproveitamento energético.

Seminário online

Logo após, nos dias 29 e 30 de abril, aconteceu o Webinar Recuperação Energética de Resíduos Sólidos: solução econômico-ambiental para um futuro melhor”. O seminário virtual contou com a presença de cinco especialistas brasileiros com sólida formação acadêmica, ligação com centros de pesquisa acadêmica e forte experiência no setor. O evento foi moderado pelo presidente da Abren.

“O Brasil tem um grande potencial não explorado de biogás e biometano. O primeiro pode ser utilizado para geração de eletricidade e o segundo, extraído a partir da filtragem do biogás, como combustível veicular. Conforme a World Biogas Association, o Brasil explora apenas 2% de seu potencial”, disse Schmitke, que é curador do Núcleo Temático Waste-to-Energy da BW 2020.

O seminário virtual foi aberto por Suani Coelho, do Instituto Energia e Ambiente da USP (IEE/USP), que falou sobre “Biogás e Biometano e seu potencial de aproveitamento no estado de São Paulo”. A especialista apresentou a ferramenta de georreferenciamento utilizada pelo Instituto que tem contribuído para a tomada de decisões de investidores. Além disso, tem ajudado ainda na formulação de políticas públicas de apoio ao desenvolvimento do setor de combustíveis e fontes de energia não fósseis e apoiado novas pesquisas acadêmicas no setor.

Projeto GEF Biogás Brasil

Os professores Antonio Carlos Francisco e o Daniel Tesser da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) trouxeram informações e dados do “Projeto da UNIDO/ONU de desenvolvimento da cadeia do biogás no setor agropecuário na Região Sul do Brasil” e analisaram o “Futuro dos projetos de biogás no Brasil”.

O projeto GEF Biogás Brasil reúne esforços coletivos de organismos internacionais, instituições privadas, entidades setoriais e o Governo Federal, com o propósito de diversificar a geração de energia e e combustível no Brasil. Desse modo, o projeto, que irá durar 5 anos, pretende reduzir a dependência nacional de combustíveis fósseis através da produção de biogás e biometano. E, com isso, fortalecer as cadeias de valor e de inovação tecnológica no setor. Os estudos apontam que o potencial brasileiro de produção de biometano equivale a 44% da demanda por diesel no País.

Uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Indústria (UNIDO), o projeto tem a liderança nacional do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Na sequência, Antonio Carlos falou especificamente sobre o ‘clustering’ para geração de valor na cadeia do biogás. Esta ferramenta consiste na identificação de possíveis parceiras estratégicas entre proprietários para geração de biogás no agronegócio. Ela identifica as coordenadas geográficas das propriedades e o potencial de produção de biogás de cada atividade. Só para exemplificar, as áreas mapeadas podem ser de proteína animal (esterco de aves, suínos e gado, restos de abatedouros e laticínios), saneamento (fração orgânica separada na origem) e resíduos sucroenergéticos (cana-de-açúcar, mandioca, etc.).

Waste-to-Energy

No dia seguinte, o seminário Recuperação Energética de Resíduos Sólidos: solução econômico-ambiental para um futuro melhor” teve como tema central o mercado de waste-to-energy. O desenvolvedor de projetos Flavio Matos apresentou os “Principais desafios para a implementação de projetos Waste-to-Energy”. Ele dividiu os principais desafios em cinco aspectos: política, econômica, social, tecnológica e legal.

Nesse sentido, ressaltou como uma dificuldade de ordem política a questão da necessidade da Coleta Seletiva. “Toda tecnologia para a melhor gestão de resíduos tem seu lugar, desde que exista a coleta seletiva, de preferência, na origem”, lembrou Matos .Após fazer detalhada análise de cada um dos aspectos, enfatizou que “o planejamento na escolha da tecnologia e fornecedores é essencial para o sucesso do projeto”.

Logo depois, o empresário Daniel Sindicic, descreveu o planejamento do projeto URE Mauá (80 MW), que deve iniciar sua construção até o final do ano. Ele disse ainda que o surgimento do WTE no Brasil é importante ambiental e estrategicamente. “Estamos na eminência de um grande colapso em centenas de aterros no Brasil, pois todos têm prazo de validade”, disse Sindicic.De acordo com o empresário, o modelo de acumulação de resíduos em aterros públicos ou privados não é mais uma solução viável. A usina de incineração URE Mauá será uma das 10 maiores usinas do mundo, com a tecnologia alemã da Standard-kessel Baumbarte.

O seminário teve o apoio da NRG HUB e Ambiental Mercantil.

Fonte e foto: ABREN – 2º Webinar da ABREN: Biogás, Biometano e WTE