Em evidência no mundo todo, preocupação com a destinação de resíduos também ganha espaço no Brasil, mas ainda depende de maior conscientização da sociedade

Em uma constatação cada vez mais consensual no mundo todo, o destino incorreto dos resíduos causa sérios prejuízos para o planeta e a sociedade. Além da poluição atmosférica, do solo e das águas superficiais e subterrâneas – com a consequente proliferação de diversas doenças –, o lixo traz outro agravante, que é a intensificação do efeito estufa, por meio da liberação de gases poluentes.

Segundo o levantamento do Departamento de Economia do Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb), o descarte em lixões e a queima irregular de resíduos no país respondem pela emissão de cerca de 6 milhões de toneladas de gases de efeito estufa ao ano. Esse montante equivale à emissão anual de gases de três milhões de carros movidos à gasolina.

E, como se sabe, isso também traz consequências negativas para o planeta, como mudanças climáticas acentuadas, que podem potencializar catástrofes ambientais, causando tempestades, secas, tornados, furacões e chuvas excessivas, entre outras. Ainda de acordo com o Selurb, o fim dos cerca de 3 mil lixões existentes no país e a instalação de ao menos 500 aterros sanitários já poderiam contribuir para diminuir os efeitos dos resíduos sólidos descartados. Mas é preciso ir além.

LIXO ZERO

Ian McKeeMcKee: avanço da economia circular

Para Ian McKee, diretor do Instituto Ecozinha, existem alternativas que podem não apenas mitigar esses efeitos, mas também reduzir drasticamente o descarte de resíduos e criar uma economia circular, que beneficie o meio ambiente, a sociedade e a própria economia. Uma delas é o conceito de “Lixo Zero”, cuja meta é desviar mais de 90% dos resíduos gerados – orgânicos e recicláveis – dos aterros sanitários. “No Brasil, existe uma rede de profissionais e apoiadores que já trabalha com esse conceito”, diz ele. “Porém, a maioria das empresas infelizmente ainda não busca se informar sobre as soluções ou mesmo introduzir metas para minimizar o desperdício e a ineficiência.”

O executivo destaca que, nesse quadro, cada pessoa ou empresa é corresponsável pela produção de resíduos, porém não são adotadas soluções para reverter a atual cultura de “descarte conveniente”, sem preocupação com a destinação final. “Todavia, a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) já define que toda a sociedade é corresponsável pelo resíduo gerado, seja empresa, instituição ou pessoa física”, explica McKee.
Nesse sentido, ele afirma ser necessário adotar processos que garantam uma destinação correta dos resíduos.

Um bom exemplo é o próprio Instituto Ecozinha, fundado pelo chef Paulo Mello em Brasília e cujo objetivo é fechar o ciclo que envolve a cadeia da alimentação, buscando maior sustentabilidade em toda a rede de bares e restaurantes, o que significa oferecer uma melhor qualidade do alimento servido nesses estabelecimentos e, simultaneamente, garantir uma destinação correta dos resíduos gerados. “A criação desses processos está influenciando os demais chefs e donos de estabelecimentos na área de alimentação”, complementa.

DESCARTE

Até o final de julho, o Instituto Ecozinha contava com a participação de 73 bares e restaurantes, mas a meta é alcançar o número de 300 estabelecimentos nos próximos meses. “Uma vez criado, o processo para se obter o Lixo Zero pode se repetir todos os meses”, comenta McKee. “Isso significa que o restaurante faz uma mudança imediata e consegue gerar um impacto contínuo dentro de sua operação, dando escala para as empresas prestadoras de serviços, que hoje já se encarregam de mais de 130 toneladas por mês de resíduos”, conta o diretor, destacando que o objetivo agora é disseminar o processo em todo o país.

Aliás, o Distrito Federal já tem trabalhado forte na questão de geração de resíduos, tanto que conta com o decreto nº 37.568/16, estipulando que grandes geradores – que produzam acima de 120 litros de resíduos por dia – deem descarte final correto ao material, o que abrange estabelecimentos comerciais, rodoviárias, aeroportos e órgãos do governo. “Essa lei é fundamental porque obriga essas instituições e empresas a dar uma destinação correta aos seus resíduos, seja contratando uma empresa especializada ou uma companhia de transporte para levar o resíduo até um aterro sanitário”, afirma McKee.

“O ideal é que essa regulamentação seja implementada em todo o país, pois as soluções oferecidas pelo mercado trazem mais resultados do que simplesmente responsabilizar o governo pela coleta e beneficiamento do resíduo.”
Além de uma melhoria acentuada na eficiência e recuperação desses materiais no pós-consumo, o especialista cita outro ponto importante trazido pela lei.

“Ela abre oportunidades para que novas empresas prestem um serviço de qualidade no segmento de coleta e beneficiamento de resíduos, ampliando assim a competitividade do setor e ajudando a formar a base de uma economia realmente circular”, diz.

EVENTO

O conceito do Lixo Zero será um dos temas abordados pela BW Expo e Summit 2020 – 3ª Biosphere World, que ocorre em outubro de 2020. “O evento está conectado à necessidade de se aplicar a tecnologia para melhorar a eficiência das operações em termos de sustentabilidade nas empresas”, afirma McKee. “Por isso, a BW 2020 será um marco para o futuro, reunindo as empresas para que – de forma colaborativa – descubram mais sobre a economia circular e evoluam em suas próprias operações.”

De acordo com o diretor executivo do Instituto Ecozinha, a BW 2020 levará para os participantes essa nova forma de atuação, onde é possível inovar, por meio de relacionamentos, parcerias com empresas e comunidade, criando novos modelos de negócio que irão revolucionar a economia. “Hoje, vivemos na economia linear – extrair, produzir e depois descartar. Mas, existe um mercado muito maior, que é a economia circular, que engloba o reaproveitamento de materiais para refabricar esses produtos. A ideia é reduzir o custo, unir as equipes, integrar a empresa com o mercado e seus clientes, diminuindo o impacto ao meio ambiente e, em certos casos, até contribuir positivamente”, explana. Por fim, McKee afirma que a BW 2020 pode ser ainda uma grande oportunidade para as empresas emergentes e disruptoras, que vão oferecer ferramentas para esse novo mercado.