A Holanda está se preparando para ser o país do hidrogênio. As províncias holandesas de Groningen e Drenthe, situadas ao norte, elaboraram um plano de € 2,8 bilhões para transformar sua região em um “Vale do Hidrogênio”. Com isso, a nação impulsionará sua aplicação, tornando-se um trampolim para economia mundial do hidrogênio.

Com a finalidade de fornecer hidrogênio livre de emissões em escala comercial até 2030, a iniciativa tem o apoio de mais de 50 parceiros mundialmente.

O hidrogênio verde é produzido a partir da eletrólise da água alimentada por energias renováveis. Embora já esteja presente em alguns ambientes industriais, o investimento é alto e o fornecimento, em pequena escala. Dessa forma, o hidrogênio azul pode ser a solução para ampliar sua utilização. Feito de gás natural com captura e armazenamento de carbono (CCS), de fato, o hidrogênio azul pode desempenhar um importante papel transitório na disponibilização de hidrogênio livre de emissões em volumes suficientes para impulsionar e integrar diferentes usos setoriais e garantir preços competitivos.

Indubitavelmente, existe a aceitação de especialistas de que o gás ainda fará parte do sistema energético europeu em 2050. Assim, ele terá um papel a desempenhar na indústria, transporte, aquecimento e refrigeração e no equilíbrio de energias renováveis ​​variáveis, como eólica e solar, no sistema elétrico.

33 projetos diferentes

Em primeiro lugar, o objetivo da iniciativa holandesa é a escala, uma vez que é o fator imprescindível para redução de custos. Assim, será importante a experiência em energia e infraestrutura de oleodutos que o Norte da Holanda construiu ao longo de muitas décadas.

Hoje, a região possui uma combinação única para ser o trampolim para economia mundial do hidrogênio. Além da  experiência e infraestrutura, conta com espaço e diversidade de demanda – da indústria química, geração de energia, logística e aquecimento. A mudança também deve proporcionar um grande impulso para o emprego.

O plano de investimento é pioneiro e lista 33 projetos concretos variados, com por exemplo, a construção de eletrolisadores de pequena e grande escala de 1 megawatt (MW) a finalmente 1 gigawatt (GW). Outro projeto é a construção de turbinas eólicas de hidrogênio, onde um eletrolisador é incorporado na turbina para produzir hidrogênio em vez de energia.

Existem ainda projetos para transformar tubos de gás natural e criar locais de armazenamento de hidrogênio e dióxido de carbono, incluindo “cavernas de hidrogênio”. Esse tipo de armazenamento pode então funcionar como baterias gigantescas para o sistema de energia.

Enfim, para promover o uso de hidrogênio, há projetos de implantação de estações de abastecimento de hidrogênio e para equipar uma nova área residencial com aquecimento ambiente de hidrogênio. A maioria dos projetos são liderados por uma ou mais empresas, incluindo Shell, Nuon, Engie, BioMCN, Gasunie e Nouryon.

Suporte governamental

Em segundo lugar, a construção de um Vale do Hidrogênio se ajusta aos objetivos climáticos e energéticos da Holanda e da Europa. A Comissão Europeia para 2050 tem buscado iniciativas para alcançar a neutralidade da emissão de carbono no continente até meados deste século.

Desse modo, o Vale do Hidrogênio faz parte do plano holandês de clima e energia para a próxima década. Certamente, poderia conceder uma contribuição real para a agenda de 2030, caso consiga atingir o objetivo de expandir o hidrogênio livre de emissões nos próximos cinco a sete anos.

Por isso, o governo holandês ressaltou seu apoio à iniciativa, reconhecendo que ele se enquadra nos planos federais de ação climática e desenvolvimento regional. O governo, inclusive, elogia a abordagem intersetorial da iniciativa.

Espera-se que a Comissão Europeia comece a construir um quadro regulamentar para o hidrogênio como parte de um pacote de políticas para 2020. Na sua estratégia climática para 2050, a Comissão observa que o hidrogênio livre de emissões pode ajudar a equilibrar os vários tipos de energias renováveis. Além disso, pode ser uma alternativa de energia energética em diversas áreas.

Prioridades de investimento

Em terceiro lugar, o objetivo do Vale do Hidrogênio é fazer o custo do hidrogênio livre de emissões ser competitivo na próxima década. Por isso, a prioridade é preencher uma lacuna de financiamento de € 100 milhões por ano a partir de agora até 2024. As empresas no norte da Holanda estão prontas investir parte desse montante, porém o restante vai depender da ajuda do governo federal e da União Europeia. Nesse sentido, a UE já realizou uma doação de € 20 milhões para o projeto em setembro de 2019.

Para 2025, está previsto um pico de investimento de € 1,37 bilhão, que irá coincidir com o início do aumento da escala. Como resultado, é esperada a produção de  bilhões de metros cúbicos (bcm) de hidrogênio azul e verde por ano, com cada bcm economizando cerca de 600 mil toneladas de dióxido de carbono.

Em resumo, a maior parte do montante será destinada ao aumento da capacidade de produção de hidrogênio.Ou seja, plantas de hidrogênio verdes de pelo menos 100 MW e uma planta de hidrogênio azul de 1,2 GW. O restante será usado para atualizar a infraestrutura de gás existente.

Transformação

Para o norte da Holanda ser o verdadeiro trampolim para economia mundial do hidrogênio, o país está se empenhando para permitir uma transição energética nacional que inclua o Vale do Hidrogênio. O governo tem planos ambiciosos de alcançar 11,5 GW de capacidade eólica offshore até 2030. Com isso, parte da energia renovável necessária para a produção de hidrogênio verde em larga escala será suprida. Outra parte poderá ser proveniente de países vizinhos, como Noruega, Dinamarca ou Alemanha, por meio de interconexões.

Paralelamente, existem vários projetos-piloto de CCS (Carbon capture and storage) em andamento na Holanda, notadamente no porto de Roterdã, para continuar o desenvolvimento dessa tecnologia, que faz parte da cadeia de produção do hidrogênio azul.

Um estudo realizado pela Navigant sugere que os custos do hidrogênio azul e verde podem estar um pouco acima de € 50/MWh até 2050. Além disso, ele releva que o hidrogênio é essencial para alcançar, de maneira acessível, zero emissões no sistema energético europeu até 2050.

Com isso, o Norte da Holanda pretende liderar uma mudança global do gás natural para o hidrogênio verde e proporcionar uma transição energética em toda a região.

Referências: Tradução livre de FORESIGHT Climate & Energy