O mercado global de laticínios é bastante competitivo e tem criado desafios e, ao mesmo tempo, oportunidades para o segmento no Canadá. Nesse sentido, as práticas ambientais, em especial o tratamento de efluente, podem ser uma oportunidade para aumentar a competitividade do setor de laticínios. Se a indústria canadense conseguir reduzir seus custos de tratamento de efluentes, as economias podem ser significativas. Além disso, há também a possibilidade de atingir o crescente mercado de produtos sustentáveis.

Atualmente, a indústria de laticínios do Canadá tem grande contribuição para o país, com aproximadamente 10 mil fazendas espalhadas pelo território e quase 1 milhão de vacas leiteiras. Como resultado, o setor contribui com $19,9 bilhões para o PIB canadense, sendo coletados $3,8 bi de impostos.

Contudo, um dos principais desafios enfrentados hoje está nos possíveis acordos comerciais, que devem abrir o mercado para outros países, cuja produção é diretamente subsidiada por seus governos. No Canadá não há este tipo de subsídio. Assim, tornar-se mais eficiente e produtivo, reduzindo o custo do tratamento de efluentes, possibilitará alcançar mais competitividade perante aos outros mercados internacionais.

De acordo com John Nicholson e Anastazia Jagdeo, da CharTech Solutions, os efluentes gerados em empresas canadenses de laticínios correspondem entre 50% e 80% da água total consumida em uma instalação de processamento. O efluente desse tipo de planta consiste principalmente de matéria prima perdida, produtos intermediários, produtos finais e água de lavagem dos equipamentos. Os principais poluentes são a DBO, os sólidos suspensos, o fósforo e a amônia. Além disso, este tipo de efluente costuma necessitar de ajuste de pH antes da descarga.

Métodos de tratamento

O local da instalação de processamento (urbana ou rural) é o que normalmente dita os métodos e a extensão do tratamento necessário. Em áreas rurais, onde o esgoto tratado é descarregado diretamente no ambiente, as restrições de lançamento são mais rigorosas. Por exemplo, em diversos locais o limite da concentração de DBO5 é de 25 ppm no efluente final, sendo que o esgoto bruto destas instalações pode atingir até 500 ppm, necessitando de tratamento extensivo. Em regiões urbanas, o esgoto de laticínios é tipicamente tratado por uma estação de tratamento municipal. Desta forma, os limites de lançamento são menos restritivos quando comparados com os da área rural.

A maioria das instalações localiza-se na zona rural, que vem enfrentando o crescente desafio de manter o suprimento adequado de água para as operações. Por conta disso, o reuso vem ganhando popularidade neste meio. A água usada nos processos é um recurso precioso demais para simplesmente ser mandado embora pelo ralo.

A solução para os desafios do setor pode residir no tratamento por MBR, que permite o tratamento de efluente em espaços reduzidos, com grande eficiência na remoção de poluentes, além de produzir água de reuso para resolver o problema de disponibilidade no campo, reduzindo os custos e aumentando a eficiência dos processos. No sistema, os microrganismos aeróbios degradam a matéria orgânica, enquanto os sólidos suspensos são retidos na ultrafiltração. Posteriormente ainda pode haver pós tratamento com osmose reversa e/ou desinfecção por UV. No fim, a água tratada tem alta qualidade e poder ser reutilizada.

Benefícios

A empresa canadense CharTech já mostrou o grande potencial deste sistema em uma instalação de processamento para frutas, onde houve redução anual nos custos operacionais de $150.000, com um retorno do valor investido em menos de três anos. Análises indicam que o setor de laticínios também apresenta potencial para grandes economias com o tratamento de efluente.

Com o possível aumento na competição, estas oportunidades, por terem grande potencial de impacto econômico, devem ser estudadas pelas empresas do setor, mas também por todas as indústrias, uma vez que a importância do desenvolvimento sustentável nos é relembrada diariamente.

Por Ana Luiza Fávaro

Referências: Tradução livre de: Wastewater reuse can help Canada’s dairy industry compete on the world stage. Environmental Science & Engineering Magazine. Outubro, 2019.